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O dia que acabou.

Sempre gostei dessa moça. Uma vez a vi falando de Nietzsche, e no meu ímpeto de 22 anos me interessei em lê-la. Mas não li. Hoje então, obra do acaso, me deparei com uma fala tão sensível e poética, que me revi nas mesmas condições. Naquele mesmo tempo, em que eu, nos meus vinte e poucos, sonhava em lê-la em outras circunstâncias. Era outono no Rio por  Viviane Mosé* Às oito ele tocou a campainha e eu não imaginava o desfecho. Tudo parecia normal, cheio de idas e vindas, como sempre, mas com final feliz. Já estávamos juntos havia quatro anos e eu conhecia os movimentos que, em algumas horas, o levavam e o traziam de volta. Mas aquele dia foi diferente, ele estava triste, com um olhar vazado, quase nulo, e, por mais que eu tentasse trazê-lo de volta daquele fundo onde parecia ter se escondido, eu não conseguia. Passamos a noite conversando, encerrando aquela história que nos parecia interminável. Tentei fazer com que se lembrasse dos nossos momentos, dos nossos pac...

Dia dos Namorados

        Ele era quieto e preguiçoso demais para explorar seu pouco interesse por garotas precariamente atrativas e loiras, e eu tão cansada que parecia mais uma réplica da introversão Jungiana. Sou extrovertida quando durmo e trabalho como um ser humano normal, mas não era o caso.  Éramos aparentemente tão incompatíveis que em uma circunstância comum nunca teríamos conversado. Lembro que naquela noite uma amiga insistiu para assistir uma banda de folk do Reino Unido. Tomei um banho correndo, e quando a carona buzinou na porta tive certeza que não deveria sair de casa. Tarde demais, rumei para o show. Lá tédio, cachorro quente, cerveja, gritinhos de bandas, excesso de guitarras, garganta arranhando com tanto barulho. Tudo me parecia um cenário montado de Máquina de Pinball. Tanto que por um instante pensei que poderia ver a Camila circulando pelo pátio. Tudo estrategicamente desarrumado. Tudo sinteticamente true. Era a rotina comum dos showzinhos ordinári...

Prazer, eu sou Hannah Horvath.

Sempre tive uma identificação com personagens femininos desajustados. Houve um tempo que me achava parecida com a Camila da Clarah Averbuck, outros tempos com a Alice do Karim Ainouz , agora poderia ser Hannah da Lena Dunham. Uma vez ouvi que quanto mais particular é algo, mais universal ele é. Talvez seja isso. Figuras femininas muito próximas de suas autoras podem se parecer com quase todas as mulheres. Hannah, como eu, um dia recebeu um ultimato da vida: se vira! E a partir disso  passou a tentar sobreviver como uma (ex) menina mimada em mundo bem confuso. Com pouca grana, fora dos padrões estéticos, com um namorado estranho (desculpe querido!) e tentando sobreviver ao caos de uma adolescência tardia pressionada por uma fase adulta que cobra seu pago. Egoísta, preguiçosa e arrogante,  Hannah é a (anti) heroína tão verdadeira que às vezes se torna surreal.  Apesar de uma personagem norte americana, branca e de classe média (o que se difere em muito de quem eu sou ...

O beijo da morte, o beijo no asfalto.

Os fones brancos no ouvido não podiam distrair-me de uma ânsia acelerada, de toda angustia da mudez imposta. Caminhei apressada pelas calçadas retilíneas, disfarçando nas mãos cambiantes o desespero para o qual me preparava. Era um medo já antigo, ignorado a todo custo. Sufocado entre as coisas empilhadas por ai.  Uma mancha inesperada pelo corpo era susto abafado que ia se espalhando por várias semanas. Não queria saber, mas não saber era morrer todo dia. Reuni toda coragem, em um pequeno artigo que falava de cura. Precisava saber. Não contei para ninguém, guardei apenas para mim. Porque pelo susto alheio eu percebia que a AIDS era um lugar solitário e silencioso que ninguém queria ir.  Era a morte, a punição prevista, o salário do pecado nos olhos inquisidores do outro. Temi pelo preconceito. Pelo meu namorado, pelos meus familiares. Temi acima de tudo por mim, pela explicitação de uma finitude sempre tão ignorada. Meu corpo, este que foi sempre pensado como um espaço de ...

Revista Feminina

Dizem que alguns historiadores se casam com seu objeto de pesquisa, com sua fonte. Pois bem, a minha então foi uma noiva arranjada, que eu nunca tinha visto (nem ouvido falar) na vida. É verdade que eu estava disponível, à procura, mas foi ela que me encontrou. Foi apresentada por uma amiga, e de repente, com pouquíssimo contato me vi completamente apaixonada.   Revista Feminina. Ela era (e é ainda) complexa, contraditória, inteligente e interessante. Guia das senhoras de uma República Velha no lado sul do mundo. Silenciosa sobre o sexo e sobre as “transgressões” da arte (semana de 22) como uma velha católica da elite paulista. Gritante opositora da violência contra a mulher e a favor do voto e do trabalho (fora de casa) feminino como uma moça rebelde da universidade de São Paulo. Tudo de uma vez só.   Tudo misturado no caldeirão de um país que tentava se modernizar e se higienizar a todo custo. Criada em 1914 por dona Virgilina de Souza Salles, a revista perdurou até 19...

As senhoras das memórias queimadas

Certa vez li que era muito comum entre as mulheres burguesas europeias queimarem seus diários, suas coleções de cartas e seus objetos de estima no fim da vida, para que não fossem achados após a sua morte. Assim garantiam seu desaparecimento. Seu silêncio, o perdão para transgressões de seus corpos brutalmente vigiados. Apagar a memória era tornar inexistente todo crime, mas também perder-se das lembranças de todas as bênçãos. A dádiva e o risco do anonimato. Pensei em senhoras, com suas blusas de tecidos rendados, sentados em poltronas vitorianas, queimando em bacias de pratas a sua vida inteira de lembranças. Isso me pareceu demasiadamente triste e solitário: Mulheres eram feitas para desaparecer.

Sobre ser margem e ser rio

"Como historiador, historiador de invenções, habitante desta terceira margem, sei que sou rio, pois sei que sou também natureza e grande parte do meu corpo é constituído por água. Mas também sorrio, pois a consciência irônica de meu tempo me faz praticar meu ofício como um lugar de desconstrução do rosto sério e sisudo das verdades definidas e estabelecidas. Sou rio, pois sei que meu saber é composto de muitos outros, sei que não sou a origem do meu saber, não sou o sujeito fundante da história que faço, sou fundado por uma sociedade, uma cultura, por formações discursivas, por práticas de poder e linguagem, sou um estuário em que vem desaguar muitos arquivos. Exerço um ofício conforme regras que não são apenas estabelecidas por mim, coerção de grupo, regras que se modificam com o tempo, mas sorrio porque sei que, apesar de tudo isso, eu participo ativamente das invenções que faço. Ao escrever história tenho atuado, agido, produzido fatos, eventos com repercussões sociais e cultu...