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Sobre ser margem e ser rio

"Como historiador, historiador de invenções, habitante desta terceira margem, sei que sou rio, pois sei que sou também natureza e grande parte do meu corpo é constituído por água. Mas também sorrio, pois a consciência irônica de meu tempo me faz praticar meu ofício como um lugar de desconstrução do rosto sério e sisudo das verdades definidas e estabelecidas. Sou rio, pois sei que meu saber é composto de muitos outros, sei que não sou a origem do meu saber, não sou o sujeito fundante da história que faço, sou fundado por uma sociedade, uma cultura, por formações discursivas, por práticas de poder e linguagem, sou um estuário em que vem desaguar muitos arquivos. Exerço um ofício conforme regras que não são apenas estabelecidas por mim, coerção de grupo, regras que se modificam com o tempo, mas sorrio porque sei que, apesar de tudo isso, eu participo ativamente das invenções que faço. Ao escrever história tenho atuado, agido, produzido fatos, eventos com repercussões sociais e cultu...

As Margens (Ou isto ou aquilo?)

" Margem da palavra, e ntre as escuras, duas m argens da palavra Clareira, luz madura..." (Milton Nascimento) Percebo que muito se cobra das pessoas que sejam coerentes.  Como numa obsessiva busca de harmonia e equilíbrio requerer-se sempre uma compatibilidade entre atos e pensamentos. Entre falas e gestos.  Entre falas e falas. Critica-se o contraditório ou quem se opôs em atos a um discurso presente, até mesmo passado. Primeiro que somos mudança e a evanescência do presente nos transforma o pensamento a cada milésimo de segundo. Desta forma, mudar o discurso é algo totalmente aceitável. Todavia, não só podemos mudar como contrariar nosso entendimento “do agora” com uma ação oposta. Porque há de se lembrar que não existe homogeneidade. Tudo se esbarra, mas não se mistura, ficam sempre pontas opostas se espetando mutuamente. Todo contraditório pode caber numa só pessoa.  Dizem que devemos tentar Ser em meio a um apanhado de Estados. Buscar um consenso en...

Já dizia o Ortega Y Gasset

Tenho reparado que cada geração que passa parece mais desconcentrada. Acho que parte disso é pelo excesso de informação e rapidez que se tem por ai. Não eu que pretenda utilizar um discurso batido contra a evolução da comunicação ou me encher da arrogância, ditando um manual de um comportamento de “como o antiquado é correto”. Não que eu não utilize a internet – Deus salve Saaevedra Fajardo! – ou não adore ver um filme em 3D. Mas do que venho falar agora é da minha experiência recente de “independência” de alguns meios. É por puro empirismo, e sei apenas que funciona comigo. Eu tenho Déficit de Atenção, contudo minha recente desintoxicação do mundo digital – leia-se viver numa casa sem internet e sem TV – tem me ajudado a ficar concentrada. Tenho lido bem mais, e conseguido me focar de forma inédita. E pensando sobre este aspecto é impossível não se lembrar do espanhol – Novamente, Deus salve a Espanha! – Ortega Y Gasset e sua teoria de ensimesmamento. Na qual ele diz que n...

Endurecer

[Uma breve conclusão sobre crescimento] Ao meu velho amigo Raphael. A idade, o passar dos anos nos torna cada vez mais indolentes. Com o tempo desistimos de fazer a revolução, ou até mesmo pensar sobre ela. Desistimos da luta armada, depois da luta pacífica, do martírio, da eternidade na história... Primeiro, porque a duras penas descobrimos que o mundo não quer salvo. Que a maior parte das pessoas não sabe aproveitar oportunidades, então sacrificar-se para dá-las seria perda de energia. E somos egoístas demais pra desperdiçar energias por algo infrutífero. Além do mais, chances iguais nos tornariam mais preguiçosos do que somos, e conseqüentemente mais fracos. Obviamente a igualdade vai na contra mão da evolução, por mais que isso soe politicamente incorreto. Segundo, não existe “bem comum”. E qualquer tentativa disso, seria um ensaio de ditadura. “Unificar para caminhar juntos” significa “impor as idéias que eu acho certo.” Muitos homens fizeram barbaridades buscando a ...