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As senhoras das memórias queimadas

Certa vez li que era muito comum entre as mulheres burguesas europeias queimarem seus diários, suas coleções de cartas e seus objetos de estima no fim da vida, para que não fossem achados após a sua morte. Assim garantiam seu desaparecimento. Seu silêncio, o perdão para transgressões de seus corpos brutalmente vigiados. Apagar a memória era tornar inexistente todo crime, mas também perder-se das lembranças de todas as bênçãos. A dádiva e o risco do anonimato. Pensei em senhoras, com suas blusas de tecidos rendados, sentados em poltronas vitorianas, queimando em bacias de pratas a sua vida inteira de lembranças. Isso me pareceu demasiadamente triste e solitário: Mulheres eram feitas para desaparecer.

Adeus locadoras de vídeos...

Por um acaso eu li que a Blockbuster pode pedir falência nos próximos dias, e isso trouxe a tona um sentimento melancólico em mim. Não que eu me importe com a gigante americana, que passa por uma séria crise financeira, mas por perceber assim, o fim de uma era. Se a Blockbuster faliu – ou está em eminente falência – significa que todas as demais locadoras irão desaparecer – ou já desapareceram. Esse já era um fato esperado, e agora, gradativamente eu passo a perceber isso na prática. A maior locadora do centro da minha cidade reduziu consideravelmente seu espaço e seu acervo. As dos bairros conhecidos foram fechando, uma a uma. Isso de certa forma me enche de uma tristeza boba, de uma nostalgia. Talvez vocês da nova geração não se lembrem bem, mas as locadoras de vídeos eram a única opção que nós, nos anos 90, tínhamos de acesso a filmes, além do cinema. Lembro-me bem de sair da missa, e passar na locadora para alugar “A Princesinha” ou “Gasparzinho”. Locava-os quase todo fim de...