Dia dos Namorados
Ele
era quieto e preguiçoso demais para explorar seu pouco interesse por garotas precariamente
atrativas e loiras, e eu tão cansada que parecia mais uma réplica da
introversão Jungiana. Sou extrovertida quando durmo e trabalho como um ser humano
normal, mas não era o caso. Éramos aparentemente
tão incompatíveis que em uma circunstância comum nunca teríamos conversado.
Lembro
que naquela noite uma amiga insistiu para assistir uma banda de folk do Reino Unido. Tomei um banho
correndo, e quando a carona buzinou na porta tive certeza que não deveria sair
de casa. Tarde demais, rumei para o show. Lá tédio, cachorro quente, cerveja,
gritinhos de bandas, excesso de guitarras, garganta arranhando com tanto
barulho. Tudo me parecia um cenário montado de Máquina de Pinball. Tanto que por
um instante pensei que poderia ver a Camila circulando pelo pátio. Tudo
estrategicamente desarrumado. Tudo sinteticamente true. Era a rotina comum dos showzinhos ordinários da classe média
semiculta: “Rock’n roll, baby!”. Sim, eu bocejava por dentro.
Eu
não era seu tipo preferido, era inadequada aos seus padrões. Larga demais,
curta demais, estudante de Direito. Ele não me chamaria atenção a quilômetros.
Longe disso, na verdade. Mas já que estávamos sentados na mesma mesa – era
amigo de não sei quem que viera no carro da carona – não tinha porque não
falar. Não havia muita opção, vale ressaltar. Pois os ainda sóbrios e acordados
se mantiveram na cúpula acústica abafada, onde as pessoas saltavam como macacos
amestrados. Dizem as más línguas que isso é o que eles chamam de diversão.
Ele
comungava do meu enfado pela noite, pelo rock, pelo mundo com a intenção de
choque. Conversamos. Conversamos com nossas opiniões vazias sobre o que não
tínhamos certeza. Como donos da verdade, falamos da indústria da baixa
literatura e sobre outras coisas incertas que pudessem matar o tempo. Matamos o
tempo, fugimos do tédio. E por fim, eu fui embora. Sem levar nada que fosse
dele, exceto minha curiosidade pelo seu desinteresse. Seu desapego intencional
em tudo que parecesse sensorial demais, óbvio. E por isso talvez, um dia, de
vários meses depois me descobri completamente encantada por ele. Acima de tudo,
encantada por seu desinteresse. Desinteresse que cria o interesse fecundo,
curioso, de quem explora o mundo além do que se vê.
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