Sobre ser margem e ser rio

"Como historiador, historiador de invenções, habitante desta terceira margem, sei que sou rio, pois sei que sou também natureza e grande parte do meu corpo é constituído por água. Mas também sorrio, pois a consciência irônica de meu tempo me faz praticar meu ofício como um lugar de desconstrução do rosto sério e sisudo das verdades definidas e estabelecidas. Sou rio, pois sei que meu saber é composto de muitos outros, sei que não sou a origem do meu saber, não sou o sujeito fundante da história que faço, sou fundado por uma sociedade, uma cultura, por formações discursivas, por práticas de poder e linguagem, sou um estuário em que vem desaguar muitos arquivos. Exerço um ofício conforme regras que não são apenas estabelecidas por mim, coerção de grupo, regras que se modificam com o tempo, mas sorrio porque sei que, apesar de tudo isso, eu participo ativamente das invenções que faço. Ao escrever história tenho atuado, agido, produzido fatos, eventos com repercussões sociais e culturais. Sou, as vezes, como um rio, mero objeto de fluxos, de processos, de relações que passam por mim, que têm em mim um ponto de apoio, mas as vezes sorrio porque posso burlar estes processos, estas determinações, estas estruturas, posso negá-las, e elas resistir, com elas me divertir e divergir, muitas vezes com um simples sorriso de ironia, Sou disciplina e antidisciplina, determinação e liberdade, estratégia e tática, astúcia e angústia. Às vezes sigo o (dis)curso, às vezes saio das margens, transbordo, alago, arrasto em meu caminho outras formas organizadas e as transformo em novas formas, e ambas compõem o meu existir de rio. Às vezes objetivado, às vezes sujeitado, às vezes objetivo, às vezes subjetivo, sempre os dois ao mesmo tempo, eu sou rio e eu sorrio, eu, natural e humano, cursivo e discursivo, invento na História e a História."

Durval Muniz de Albuquerque Júnior - A arte de inventar o passado.





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