O dia que acabou.
Sempre gostei dessa moça. Uma vez a vi falando de Nietzsche, e no meu ímpeto de 22 anos me interessei em lê-la. Mas não li. Hoje então, obra do acaso, me deparei com uma fala tão sensível e poética, que me revi nas mesmas condições. Naquele mesmo tempo, em que eu, nos meus vinte e poucos, sonhava em lê-la em outras circunstâncias.
Era outono no Rio
por Viviane Mosé*
Às oito ele tocou a campainha e eu não imaginava o desfecho. Tudo parecia normal, cheio de idas e vindas, como sempre, mas com final feliz. Já estávamos juntos havia quatro anos e eu conhecia os movimentos que, em algumas horas, o levavam e o traziam de volta. Mas aquele dia foi diferente, ele estava triste, com um olhar vazado, quase nulo, e, por mais que eu tentasse trazê-lo de volta daquele fundo onde parecia ter se escondido, eu não conseguia. Passamos a noite conversando, encerrando aquela história que nos parecia interminável. Tentei fazer com que se lembrasse dos nossos momentos, dos nossos pactos e sonhos, das nossas conquistas, da parceria, da cumplicidade, do desejo, mas nada, ele estava certo do que queria. Tão certo que sofria, visivelmente, com aquela situação. Você sofre porque me ama, eu dizia, porque não quer se afastar de mim. Ele ficava mudo porque sabia que não, ele sofria exatamente porque não me queria mais, mesmo com toda cumplicidade, parceria, sonhos, pactos, conquistas, desejo. Às cinco da manhã ele saiu, estávamos exaustos. Tomei um banho e fui para o aeroporto, meu voo era as nove, para Palmas, com escala em Brasília. Era um dia de outono, me vesti delicadamente, enquanto lágrimas escorriam pelo rosto. Entrei no táxi, um vento frio tocava minha pele. Às vezes tirava os óculos escuros para secar aquele rio insistente brotando dos meus olhos. Tudo doía, o peito, os olhos, as mãos, o céu também doía e as ruas, as esquinas, as pessoas passando, tudo amargava em minha boca. Desci do táxi e, enquanto andava por aqueles corredores, me vi, por alguns segundos, com um andar tão lânguido, naquele casaco comprido, os cabelos encaracolados e cheios, muito leves ao vento, os óculos escuros, as lágrimas sob as lentes, a pequena valise, era tudo tão bonito, que me encantou. Continuei sofrendo, na sala de embarque, durante o voo, mas agora, além de sofrer, eu me via sofrendo. Via uma jovem mulher vivendo, tão digna em sua dor, tão firme em seus propósitos, que pude sentir alegria, alegria de viver, com todos os ganhos e perdas, com todos os conflitos e contradições que estar vivo implica. E continuei caminhando.
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