O beijo da morte, o beijo no asfalto.
Os fones brancos no
ouvido não podiam distrair-me de uma
ânsia acelerada, de toda angustia da mudez imposta. Caminhei apressada pelas
calçadas retilíneas, disfarçando nas mãos cambiantes o desespero para o qual me
preparava. Era um medo já antigo, ignorado a todo custo. Sufocado entre as
coisas empilhadas por ai. Uma mancha
inesperada pelo corpo era susto abafado que ia se espalhando por várias semanas.
Não queria saber, mas não saber era morrer todo dia. Reuni toda coragem, em um
pequeno artigo que falava de cura. Precisava saber. Não contei para ninguém,
guardei apenas para mim. Porque pelo susto alheio eu percebia que a AIDS era um
lugar solitário e silencioso que ninguém queria ir. Era a morte, a punição prevista, o salário do
pecado nos olhos inquisidores do outro. Temi pelo preconceito. Pelo meu
namorado, pelos meus familiares. Temi acima de tudo por mim, pela explicitação
de uma finitude sempre tão ignorada. Meu corpo, este que foi sempre pensado
como um espaço de luta e de pensamento seria reduzido a corpo. Minimizado a
biologia finita, encarado como organismo que morre. No caminho do laboratório
fui contando as condutas de risco. As irresponsabilidades. As possíveis falhas
das responsabilidades. 26 anos, sexo desprotegido e objetos cortantes. 26
anos e uma roleta russa, praticada continuamente.
A AIDS ou HIV é uma
doença invisível, e digo doença porque mesmo sabendo das distinções que os
especialistas insistem em esclarecer, socialmente ainda são uma coisa só: Morte
anunciada. Enquanto o câncer é a doença da piedade, da
mobilização de afeto coletivo, a AIDS é o estigma. O comportamento sexual
indevido, a pena a ser cumprida pelo crime. Aidética/o sai como um xingamento.
Quase que vadia. O mesmo tom de punição por uma conduta sexual. O estigma pelo
imaginário coletivo de degeneração. Pela sexualidade não “permitida” no grupo. E
mesmo sabendo que ela se transmite em todos os meios, e que os dados recentes
revelam que especialmente entre pessoas "oficialmente" casadas, ainda soa como o
peso do sexo. Algo sujo e inoportuno. Tudo é no fim a respeito da vigilância
do corpo.
Na noite anterior, pesquisei tudo que pude sobre a doença. Vi o quanto eu estava desinformada. Educada nos anos 90, a AIDS para mim ainda era o mal sem cura, a sentença de morte. O corpo esquelético do Cazuza. Lembro-me bem quando surgiu o coquetel em 1995, mas talvez não tivesse prestado tanto atenção por ser jovem demais. Daquele passo à hoje, 2013, muita coisa mudou. As pessoas agora podem levar uma vida longa e normal (ou quase), exceto pelo volume de preconceito que se joga sobre elas.
Na noite anterior, pesquisei tudo que pude sobre a doença. Vi o quanto eu estava desinformada. Educada nos anos 90, a AIDS para mim ainda era o mal sem cura, a sentença de morte. O corpo esquelético do Cazuza. Lembro-me bem quando surgiu o coquetel em 1995, mas talvez não tivesse prestado tanto atenção por ser jovem demais. Daquele passo à hoje, 2013, muita coisa mudou. As pessoas agora podem levar uma vida longa e normal (ou quase), exceto pelo volume de preconceito que se joga sobre elas.
Entreguei o protocolo e
recebi com a outra mão o envelope rosa
pela mesma moça que no dia anterior havia me entregado um termo de permissão
para que eu assinasse. Sim, para fazer o teste de HIV necessita-se assinar um
termo de permissão, afinal é uma doença do segredo. Abri mesmo desconfiando que
não seria compreensível aos meus olhos leigos os dados nele contido. Abri, pois
esperar 20 minutos até o atendimento do médico iria me matar. Abri, e procurei
nas linhas desconexas uma resposta confiável. Abri. Soro não reagente. E depois
de quase três anos respirei.
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