O beijo da morte, o beijo no asfalto.
Os fones brancos no ouvido não podiam distrair-me de uma ânsia acelerada, de toda angustia da mudez imposta. Caminhei apressada pelas calçadas retilíneas, disfarçando nas mãos cambiantes o desespero para o qual me preparava. Era um medo já antigo, ignorado a todo custo. Sufocado entre as coisas empilhadas por ai. Uma mancha inesperada pelo corpo era susto abafado que ia se espalhando por várias semanas. Não queria saber, mas não saber era morrer todo dia. Reuni toda coragem, em um pequeno artigo que falava de cura. Precisava saber. Não contei para ninguém, guardei apenas para mim. Porque pelo susto alheio eu percebia que a AIDS era um lugar solitário e silencioso que ninguém queria ir. Era a morte, a punição prevista, o salário do pecado nos olhos inquisidores do outro. Temi pelo preconceito. Pelo meu namorado, pelos meus familiares. Temi acima de tudo por mim, pela explicitação de uma finitude sempre tão ignorada. Meu corpo, este que foi sempre pensado como um espaço de ...