As senhoras das memórias queimadas
Certa vez li que era
muito comum entre as mulheres burguesas europeias queimarem seus diários, suas
coleções de cartas e seus objetos de estima no fim da vida, para que não fossem
achados após a sua morte. Assim garantiam seu desaparecimento. Seu silêncio, o
perdão para transgressões de seus corpos brutalmente vigiados. Apagar a memória
era tornar inexistente todo crime, mas também perder-se das lembranças de todas
as bênçãos. A dádiva e o risco do anonimato. Pensei em senhoras, com suas
blusas de tecidos rendados, sentados em poltronas vitorianas, queimando em
bacias de pratas a sua vida inteira de lembranças. Isso me pareceu
demasiadamente triste e solitário: Mulheres eram feitas para desaparecer.
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