Revista Feminina
Dizem que alguns
historiadores se casam com seu objeto de pesquisa, com sua fonte. Pois bem, a minha então foi uma noiva arranjada, que eu nunca tinha
visto (nem ouvido falar) na vida. É verdade que eu estava disponível, à procura,
mas foi ela que me encontrou. Foi apresentada por uma amiga, e de repente, com
pouquíssimo contato me vi completamente apaixonada. Revista Feminina. Ela era (e é ainda) complexa,
contraditória, inteligente e interessante. Guia das senhoras de uma República
Velha no lado sul do mundo. Silenciosa sobre o sexo e sobre as “transgressões”
da arte (semana de 22) como uma velha católica da elite paulista. Gritante opositora
da violência contra a mulher e a favor do voto e do trabalho (fora de casa)
feminino como uma moça rebelde da universidade de São Paulo. Tudo de uma vez
só. Tudo misturado no caldeirão de um país que
tentava se modernizar e se higienizar a todo custo.
Criada em 1914
por dona Virgilina de Souza Salles, a revista perdurou até 1936. Era em sua
época a única revista direcionada às mulheres, dirigida também por mulheres (Empresa
Feminina Brasileira). Apesar de receber
contribuições masculinas, a revista se propunha ser uma fala de mulher para
mulher. Pois até mesmo quando o ilustre irmão da fundadora, Claudio de Souza,
escrevia artigos para o periódico como parte da equipe jornalística, assinava
como Anna Rita Malheiros. Afinal, a participação masculina deveria ser
esporádica, reafirmando que as colunistas da revista eram todas mulheres.
A revista ganhou
voz, vendeu-se (chegou a tiragem de 25.000 exemplares), correu o país. Abordou assuntos caros ao
feminismo (mesmo considerando haver um bom e um mau feminismo). Protestou
contra opressões e ao mesmo tempo reafirmou os papéis da mulher no patriarcado
(mãe e esposa). Falou de beleza e brancura, comungou com os princípios eugênicos
de seu tempo. Deu passos a diante. Reafirmou o passado. Publicizou os corpos
femininos, os remédios de beleza. O milagre da busca pela perfeição da aparência
feminina. Conservou e
revolucionou. Contou parte da história de seu tempo, em seu papel marcado pela
prensa. Hoje na distancia do tempo de uma “Era dos extremos” a Revista Feminina
ainda me sussurra nos ouvidos formas de repensar o corpo, o feminino e o
gênero. E assim, me (re) construir todo
dia.
*Você pode acessar uma Revista Feminina aqui.
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