Já dizia o Ortega Y Gasset
Tenho reparado que cada geração que passa parece mais desconcentrada. Acho que parte disso é pelo excesso de informação e rapidez que se tem por ai. Não eu que pretenda utilizar um discurso batido contra a evolução da comunicação ou me encher da arrogância, ditando um manual de um comportamento de “como o antiquado é correto”. Não que eu não utilize a internet – Deus salve Saaevedra Fajardo! – ou não adore ver um filme em 3D. Mas do que venho falar agora é da minha experiência recente de “independência” de alguns meios. É por puro empirismo, e sei apenas que funciona comigo.
Eu tenho Déficit de Atenção, contudo minha recente desintoxicação do mundo digital – leia-se viver numa casa sem internet e sem TV – tem me ajudado a ficar concentrada. Tenho lido bem mais, e conseguido me focar de forma inédita. E pensando sobre este aspecto é impossível não se lembrar do espanhol – Novamente, Deus salve a Espanha! – Ortega Y Gasset e sua teoria de ensimesmamento. Na qual ele diz que não é do homem a humanidade, o pensamento. Este é um esforço contínuo que não lhe é dado gratuitamente. O pensamento vem através do ato, exclusivo do humano, se ensimesmar. Ou seja, entrar dentro de si. Os animais irracionais, ao contrário são alterados, ou seja, vivem do Alter – outro, externo. Gasset diz ainda, que do ensimesmamento o homem constrói observações sobre o que lhe é externo, desta forma, é capaz de modificar o seu meio, com constituições feitas a partir da sua compreensão, e modo exclusivo de ver e entender algo. É isso que o torna diferente. Contudo, o excesso de entretenimento que se tem na dita transmodernidade nos torna cada vez mais alterados. Cada vez mais incapazes de ensimesmar-se, uma vez que “digerir” o externo, através da compreensão interna é um processo lento e trabalhoso, que requer esforço e apreensão de sentido. Desta forma, muito mais fácil é distrair o cérebro com algo imediato e prazeroso. Porém a demasia do “divertido-vazio” nos faz perder um pouco do que nos torna homens, a possibilidade de pensar.
Sei que na contemporaneidade é impossível se isolar; o mundo prega o excesso de informação, tão arraigado pelo moderno – mas o moderno deu certo? – e desta forma “precisamos” ter notícias, saber do mundo ao nosso redor. Nessa busca obsessiva quase sempre nos deparamos com o entretenimento, que nos desvia o foco. Então, a necessidade de agregar o que alter, muitas vezes evita que compreendamos de fato. Que passemos o externo pela apreensão interna.
Confesso a vocês que ando “mal” informada. Que quase não sei sobre a morte do Osama Bin Laden, e que não vi sobre os escândalos políticos do Estado de Goiás. Não acessei a última tendência do FaceBook, e não assisti o último vídeo engraçado do YouTube. É tudo uma questão de foco. É concentração naquilo que de fato interessa, ao menos a mim. Além do mais, concentração me algo muito precioso. Assim abrir mão de “banalidades” [i] é um preço justo a pagar por ela. Hoje me prendo ao que me dá muita satisfação[ii] ou o que me muda internamente. Às vezes com sorte tenho os dois juntos. Por que já assumi – com muita angustia – a minha condição de limitação. Sei que nunca aprenderei sobre tudo, em todos os tempos. Então o que me resta e transformar a estranheza do que me fascina em familiaridade; É ensimesmar-me sobre o que de fato me transforma, e/ou me agrada. E isso é pessoal, único e exclusivo. Mas por fim, isso não é uma crítica a informação/diversão, mas sim notas sobre minha perda pessoal em meio ao excesso disso tudo. E meus recentes ganhos ao me isolar parcialmente. Por que esse texto não é um relato a La Nietzsche – “Como me tornei sábio” – mas sim, uma forma de reafirmar um processo do que está me fazendo muito bem. Sem nenhuma pretensão além.
Comentários
Postar um comentário