Endurecer

[Uma breve conclusão sobre crescimento]

Ao meu velho amigo Raphael.

A idade, o passar dos anos nos torna cada vez mais indolentes. Com o tempo desistimos de fazer a revolução, ou até mesmo pensar sobre ela. Desistimos da luta armada, depois da luta pacífica, do martírio, da eternidade na história...

Primeiro, porque a duras penas descobrimos que o mundo não quer salvo. Que a maior parte das pessoas não sabe aproveitar oportunidades, então sacrificar-se para dá-las seria perda de energia. E somos egoístas demais pra desperdiçar energias por algo infrutífero. Além do mais, chances iguais nos tornariam mais preguiçosos do que somos, e conseqüentemente mais fracos. Obviamente a igualdade vai na contra mão da evolução, por mais que isso soe politicamente incorreto. Segundo, não existe “bem comum”. E qualquer tentativa disso, seria um ensaio de ditadura. “Unificar para caminhar juntos” significa “impor as idéias que eu acho certo.” Muitos homens fizeram barbaridades buscando a felicidade da comunidade. Por que, no final das contas, uma causa é só um ego inflado. Uma tentativa de fazer com que todos vejam o quanto você estava certo o tempo todo, e reconheçam o quão benevolentes são seus atos. No fundo os grandes revolucionários não passaram de megalomaníacos neuróticos... E world peace só soa bem em discurso presidencial, ou em concurso de miss. Terceiro, porque simplesmente estamos cansados demais. As cidades crescem, as distâncias aumentam sempre... Transportar-se pesa, cansa, faz as pernas doerem, e ninguém quer salvar o dia depois do expediente, com as pernas inchadas. No fundo, ficávamos pensando sobre isso para matar o tempo, no intervalo da escola para o curso de inglês. Por que é como meu avô costuma dizer: “Menino tem tempo pra ir longe” e com perdão da vulgaridade, os acessos de humanidade que tínhamos aos dezesseis anos não passavam de tédio e inocência.

Hoje eu percebo que o tempo endurece a carne, fortalece o calo. Já não precisa se machucar tão fácil, porque a pele fica áspera, resistente, e consequentemente, bem menos sensível. Na mesma medida que evitamos a dor, evitamos também o subjetivo, a beleza do encantamento com o mundo novo. O mundo novo deixa de existir. A ingenuidade se foi, e tudo ficou um tanto quanto previsível, um tanto quanto chato e óbvio demais.

Não choramos mais com os mortos alheios do mundo devastado, com as crianças com fome em um canto escuso, com o amor verdadeiro no final do filme depois da novela. Afinal, já temos nossos próprios mortos. E nem para estes nos sobra muito tempo para lamentar a ausência. A correnteza nos arrasta no infinito instinto de sobrevivência. Hoje queremos ser o burguês curvas que considerávamos malévolo há anos atrás.

A experiência nos faz prever o futuro de forma tão fácil. E assim, nos tornamos pessimistas incuráveis! Melancólicos crônicos... A fé no bem, no futuro, na verdade, se esvai tão volátil quanto uma bexiga no ar e só sobra a candura que tivemos em algum momento do passado.

Descobrimos que amor incondicional é uma piada, e que todos os relacionamentos estão fadados ao tédio, ao fim ou ao sofrimento. E assim tentamos nos manter desesperadamente no controle do botão on/off do envolvimento. Claro, ressalto aqui o tentamos, pois se existe algo que o homem nunca perde é a esperança neste utópico amor verdadeiro. Ainda, que tudo que seu inconsciente deseja é perpetuação da espécie, ele acredita que existe de fato um quê platônico e belo no meio do desejo sexual desenfreado... Ahan, Cláudia, senta lá!...

Falando de maneira incrivelmente brega, caímos sempre nos envolventes “tentáculos da paixão”. Por que talvez, por um sortilégio da natureza, sempre vamos tentar povoar esse pobre planeta com a nossa espécie barata. E assim, Fortuna nos prega uma peça e a nossa intuição – conhecimentos e percepções do mundo externo – falha. Nossos experimentos se calam, e viramos um peixe dourado. Nos arriscamos sempre mais uma vez. Porque no final das contas, não tem nada mais viciante do que este coquetel hormonal que nos faz ver o aquário como se fosse novidade. Mas como sempre, essa sensação é provisória. E a aflição da ausência dela, sempre nos deixa um pouquinho mais descrente, um pouquinho mais fortalecido, mais imune ao sentimentalismo. Ainda que sejamos pateticamente necessitados de companhia, buscamos cada vez mais ser efêmeros. E no fim, somos apenas ridículos carentes que fingem não ser carente, para ter sua carência suprida.

No final, estamos cada vez mais duros. Envelhecer é endurecer... A casca mais grossa. O corpo mais morto, a mente mais entediada, as expectativas mais frustradas.

No entanto, amadurecer, estar pronto, me parece inalcançável. Pois independente da idade, sempre vejo pessoas com atitudes irrefletidas semelhante a de crianças de 5 anos. Então concluo que se estar pronto tem ligação com dominar a si mesmo em todos os momentos e em todos os sentidos, nunca amadurecemos. Mas envelhecemos, criamos resistência as porradas da vida. Nos cansamos, nos entediamos... Crescemos.

E tornar-se adulto é se opor a infância, de infante, de o “aquele que ainda não sabe”, “que ainda não fala”... Então, por fim, vejo que crescer é deixar de não saber, obter experiência. E acredite em mim, crescer é acima de tudo aprender que o mundo não passa de uma masmorra, onde tudo é um acumulado de porcarias, e que nada do que você faça vai de fato mudar isso. Mas... Que ainda existem momentos de alegria, de extravasamento do instinto, de saciar-se no impensado, da realização da disciplina, da volúpia inigualável do dever cumprido. E é o que nos sobra de bom! O que temos para nos salvar é a oportunidade de nos dar prazer... Independente de como ele seja. O prazer como meio, o prazer como fim, como objetivo de realização. O que sobra disso, o que é aquém ao prazer e a busca de obtê-lo é nada... É só a contemplação do mundo em desgraça, de pessoas sem rumo, de um formigueiro pisoteado, da vida como uma passagem sofrível e insignificante.

Comentários

  1. Porra, bem bonito esse texto, cara! Gostei.
    =^***

    ResponderExcluir
  2. Muito bom o texto. Ótimo mesmo.
    E eu creio que amadurecer tem mais a ver com suas vivências e sua mentalidade, do que com seu numero de aniversários.^^

    Parabéns

    ResponderExcluir
  3. .. o texto vem com arma?

    ResponderExcluir
  4. Lindo texto! E não é isso mesmo crescer?

    Besos,

    Do Jorge.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Sobre meninos e lobos

O ex ainda dói.

Pais