Sobre meninos e lobos


 Publicado em 14 de Março de  2019, sobre o massacre de Suzano-SP. 

Desculpe, mas a culpa não foi culpa do Bullying...
Nem do vídeo game, e também não foi culpa dos pais... Ficamos chocados com Suzano, com Goiânia, com Realengo porque são explosões de violência, e como explosões elas tem esse peso impactante. Mas não podemos esquecer que essa violência sempre esteve lá, acumulada gota a gota, velada nos corredores do cotidiano. E recentemente ainda mais alimentadas pelos discursos agressivos, armamentistas e de canalização da truculência aos “inimigos”, que tomam todas as partes especialmente as mídias sociais, que chegam tão rapidamente aos jovens. Estes ataques são estimulados continuamente pela falta de empatia, pela falta de um olhar sensível para com o outro, em um mundo tão competitivo e preocupado em fazer vencedores a todo custo. Mesmo que seja ao custo de muito ódio. Não podemos esquecer que a outra ponta do sucesso é o fracasso, e este é o destino de todos nós em algum momento da vida. Porém, a frustração na mente de quem foi educado para vencer a todo custo, somado a grandes doses de ódio e rancor, pode virar literalmente gatilho para grandes disparos.
Na tão estimulada correria das competições de um mundo que divide pessoas entre vencedores e perdedores, na qual vale tudo para se dar bem e se deseja a qualquer custo estar entre os privilegiados, os poderes (conhecimento, beleza, riqueza e etc) muitas vezes são instrumentalizados como meio de opressão e não de evolução e contribuição. Não que eu queira de maneira alguma justificar estes atos repugnantes com uma análise apenas social, porque jamais devemos esquecer o peso das escolhas individuais na vida de todas pessoas, porém quero fazer uma análise (vulgo textão do face) de uma sociedade onde sobra ódio e falta amor, e o que pode acontecer quando atinge pessoas desequilibradas e fragilizadas de algum modo.
Alimentamos uma sociedade agressiva, grotesca, machista, pouco colaborativa (o coletivista é taxado de imbecil), onde a masculinidade é exaltada pela violência – não sei se vocês já repararam, mas estes disparos odiosos são majoritariamente realizados por homens e meninos – e a dor do outro é vista como ponto de ataque para fortalecimento pessoal. Juntamos toda essa mistura num caldeirão infernal e vemos de camarote (com medo e fascínio) pessoas matando outras pelo simples espetáculo do caos. Desfocamos o motivo culpando o rock, o vídeo game, a internet, e esquecemos que estas tragédias são alimentadas e estão enraizadas na mesma violência e ódio que todo dia faz inúmeras vítimas de maneiras menos estrondosa. O bullying, o machismo, o racismo, a homofobia é fruto de uma violência gratuita e de uma grande cegueira para com o próximo, que é continuamente alimentada por discursos de exclusão, que divide o mundo entre nós e os outros (outros que merecem ser desprezados ou eliminados).
Todo mundo tem feridas, todo mundo tem um ponto que doí mais, todo mundo tem uma fragilidade, e ao invés de tentar dar as mãos nessa dura caminhada que é a vida, preferimos manter discursos desprezíveis de que só importa o mais forte, vencer e eliminar. Isso no campo político/discursivo cria aberrações proto-fascistas com falas armamentistas, intenções de destruições e exclusões de grupos étnicos, por questões de gênero e etc. E no campo afetivo nos ensina que chorar, que falar, que abraçar, que se declarar, que se expor, que ajudar, que fazer o bem, que ser honesto é para os fracos, numa contínua e exaustiva guerra de poder que nem sempre leva a assassinatos (mas leva também, veja o crescimento dos shooting e das gigantescas taxas de feminicídios e crimes de ódio), mas educa e mantêm pessoas bélicas e emocionalmente destruídas.
E deixo claro que este texto não pretende apontar uma solução, apesar de eu ser uma dessas utópicas que tenta todos os dias remar contra a maré na educação pública brasileira. Este texto é para repensarmos tais fatos, e deixarmos de vê-los como casos isolados, como culpa do Free Fire ou do Bullying. Estes casos são claramente crimes de ódio, estruturado e retroalimentado pela falta de empatia, por discursos de exclusão e recentemente pela institucionalização de tais noções em diversos campos públicos (não é obra do acaso que tanto os jovens de Suzano quanto o rapaz de Realengo eram membros de fóruns obscuros da extrema direita, que apoiavam diversas violências contra minorias). Inclusive, Bullying é só mais uma expressão importada que não diz muito, apenas põe num pacote infanto-juvenil diversas expressões de ódio como racismo, homofobia, gordofobia e etc. Então como eu disse, esse texto não consegue apresentar soluções, mas vem pra dar apenas um recado, digníssimos senhores enlutados com a violência nas escolas, não adianta se chocar com Suzano e fazer arminha com a mão.

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