Pais
Para quem não sabe, eu tive dois pais.
Um era um retirante nordestino, amigo do Patativa, que cantou com ele até de madrugada no dia que partiu de Assaré-CE aos 17 anos de idade (em 1944) e nunca mais voltou. Ele foi um imigrante que peregrinou errante por esse Brasil afora. Foi peão, foi patrão, morou no Sul, mas rumou para o oeste com a coragem e o pioneirismo de quem tem Sol em Escorpião e a Lua em Áries. Com esse pai eu aprendi a sonhar com pavões misteriosos no céu, com lendas ao cair da tarde no meio da Amazônia e a memorizar e recitar cordel. Aprendi que homem chora, cuida dos filhos e é especialmente tolerante e amoroso com os netos. Aprendi a beber leite no curral, a esperar o dia da vacinação do gado, a andar de Toyota no atoleiro e em cima da gaiola do caminhão. A entender que a vida é uma aventura e que devemos sempre ter coragem de desbravar o mundo. Sinto falta dele todos os dias. Do cheiro, do chapéu, do seu senso urgência, do afeto e da força de um homem que mais se parecia um herói rebelde de um mito grego.Meu outro pai é um libriano nerd que prefere as aventuras contadas pelos livros. O paranaense mais paraense que eu conheço. Que mesmo morando no extremo norte do país tem a alma de menino criado jogando D&D no porão de casa. Leu toda a coleção do Tolkien e devora qualquer fantasia medieval que caia nas mãos dele. Minhas memórias mais antigas é dele sentado em uma cadeira com um livro na mão, um olho na leitura e outro no trabalho. Foi na casa dele que eu vi a primeira biblioteca, a única que existia na cidade naquele tempo. Meu pai colecionava HQ e assistia Star Trek mesmo morando no garimpo de Serra Pelada nos anos 80. Com ele aprendi a gostar de livros (bem menos que ele, eu confesso), de História (especialmente Gregos e Romanos) e a fantasiar teorias de conspiração por pura diversão. Hoje é meu melhor amigo, das longas ligações, das trocas de livros, da comemoração das conquistas, do amparo nas tristezas, dos socorros financeiros e das brigas sobre política.
Hoje tenho a percepção do quanto esses dois homens impactaram na minha vida. O quanto minhas decisões inconscientemente foram forjadas pelas referências deles. Me faz pensar como os homens deveriam medir o papel deles na criação dos filhos. Num mundo de masculinidades tóxicas, tive o privilégio de ter pais excepcionais em afeto e cuidado e tenho certeza que isso fez toda a diferença. Como se um fosse a mente e o outro o coração. Dizem que precisa de uma tribo inteira para criar uma criança. Eu tive minha tribo. Feita de avó, avô e pai. E hoje tenho certeza que alguém no plano astral gosta muito de mim por ter me dado uma Neide, um Vicente e um Pedro para me conduzir nesta caminhada.
Feliz dia dos pais.
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