As Margens (Ou isto ou aquilo?)

" Margem da palavra, entre as escuras, duas margens da palavra
Clareira, luz madura..." (Milton Nascimento)






Percebo que muito se cobra das pessoas que sejam coerentes.  Como numa obsessiva busca de harmonia e equilíbrio requerer-se sempre uma compatibilidade entre atos e pensamentos. Entre falas e gestos.  Entre falas e falas. Critica-se o contraditório ou quem se opôs em atos a um discurso presente, até mesmo passado. Primeiro que somos mudança e a evanescência do presente nos transforma o pensamento a cada milésimo de segundo. Desta forma, mudar o discurso é algo totalmente aceitável. Todavia, não só podemos mudar como contrariar nosso entendimento “do agora” com uma ação oposta. Porque há de se lembrar que não existe homogeneidade. Tudo se esbarra, mas não se mistura, ficam sempre pontas opostas se espetando mutuamente. Todo contraditório pode caber numa só pessoa.
 Dizem que devemos tentar Ser em meio a um apanhado de Estados. Buscar um consenso entre as idéias opostas que abrigamos e transformar todos os “ingredientes” numa fina massa coerente. Onde se escolhe um curso, e se adapta o que é adequado a ele, e se exclui o que não é. Eu nunca consegui, por isso vivo da incerteza. Não sei. Não creio. Não afirmo (ou afirmo?). Trago comigo a bagunça e desproporção – vide meu quarto.  
Confesso que já me cobrei isso um dia. E até mesmo comprei um discurso vendido na Nova Acrópole em feiras de filosofia: “Buscai a coerência”. Mas se tem algo que o tempo me ensinou é que não é possível conciliar o todo. Somos (ou estamos) um apanhado de contradições, discursos opostos que se casam numa mesma crença, ou várias crenças que digladiam na mesma pessoa. Não releia os meus posts antigos, não acredito mais neles. Ou se acredito, tenho grandes ressalvas e já agi em contrário. A minha oração não é eterna, não é o todo da minha vida. Sou incoerente, sou confusão, acima de tudo não sou. E o que me salva da angustia terrível do não ser, é saber que sempre poderei escolher ficar no meio do rio e não optar por uma margem. Andar numa margem, enquanto amo a outra. Ou amar as duas ao mesmo tempo, na mesma intensidade. 




PS: Leia esse texto do Guimarães Rosa 

Comentários

  1. mudar de idéia é algo natural.
    inclusive não ter orgulho, dar o braço a torcer é um exercício necessário.
    mas eu não me dou com a inconstância.
    a estabilidade pra mim é uma necessidade premente.
    admiro quem vive "às cegas"; infelizmente não tenho essa aptidão.
    muito bom o post.

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  2. o sentido de buscar a coerência é tentar ordenar tudo isso que vivemos em algo que faça algum sentido pessoal pra nós. As pessoas superficiais são incoerentes, elas não fazem sentido porque não integram os momentos vividos a ponto de ir formando uma idéia central mais coesa que as permita separar o que vai e o que fica, o que as torna superficiais com idéias incoerentes formando uma espécie de colcha de retalhos maluca.

    Eu não vejo isso como um processo estático porque esse núcleo que formamos através das experiências na busca da coerência é uma coisa fluída, cheia de pontas soltas, porém em constante transformação.

    se você assiste um filme, a imagem muda o tempo todo mas você reconhece a coisa como um todo, se você olha uma tv fora de sintonia a imagem muda o tempo todo, mas não se reconhece nada.

    E por aí vai!

    Muito bom o post mesmo!

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  3. Vejo alguém muito mais madura! ;)

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